Fábio Visnadi

Entrevistas e generalidades

The Waste Land (T.S. Eliot, 1922)

A TERRA PERDIDA

tradução por Fábio Visnadi

I. O ENTERRO DO MORTO

Abril é o mês mais cruel, germinando
Lilases da terra morta, mixando
Memória e desejo, remexendo
Embotadas raízes com chuva de primavera.
O inverno nos manteve aquecidos, cobrindo
A terra em neve esquecível, alimentando
Uma pequena vida com secos tubérculos
O verão nos surpreendeu, recobrindo Starnbergersee
Com um banho de chuva, nós paramos na colunata
E saímos à luz do sol, em Hofgarten
E bebemos café, e conversamos por uma hora.
Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.
E quando nós éramos crianças, ficando na casa do arqueduque,
Meu primo, ele me levou para sair num trenó
E eu estava apavorada. Ele disse, Marie,
Marie, segure firme. E para baixo nós fomos.
Nas montanhas, lá você se sente livre.
Eu leio, muito à noite, e vou ao sul no inverno.

Quais são as raízes que se agarram, quais ramos crescem
Nesse entulho pedregoso? Filho de homem,
Você não pode dizer, ou adivinhar, pois você só conhece
Uma pilha de imagens quebradas, onde o sol bate
E as árvores mortas não dão abrigo, o grilo não dá alívio
E a rocha seca não tem som de água. Apenas
Há a sombra embaixo dessa pedra vermelha,
(Toma posse debaixo da sombra dessa pedra vermelha),
E eu vou mostrar a você algo diferente de ambos
Sua sombra de manhã galgando atrás de você
Ou sua sombra à noite elevando-se para te conhecer;
Eu vou te mostrar medo num punhado de pó

Frisch weht der Wind
Der Heimat zu.
Mein Irisch Kind,
Wo weilest du?

‘Você me deu os primeiros jacintos um ano atrás;
‘Eles me chamaram a garota jacinto.’
Ainda quando nós voltamos, tarde, do jardim de jacintos
Seus braços cheios, e seu cabelo molhado, eu não podia
Falar, e meus olhos falharam, eu não estava
Viva nem morta, e eu não sabia nada,
Olhando o coração da luz, o silêncio.
Od’und leer das Meer.

Madame Sosotris, famosa cartomante,
Tinha uma gripe ruim, todavia
É conhecida por ser a mulher mais sábia da Europa,
Com um maço de cartas amaldiçoado. Aqui, ela diz,
Está sua carta, o Marinheiro Feniciano afogado
(Aquelas são pérolas onde eram seus olhos. Olhe!)
Aqui está Belladonna, a Dama das Pedras,
A senhora das situações
Aqui está o homem com três bastões, e aqui está a Roda,
E aqui está o mercador de um olho, e essa carta
Que é branca, é algo que ele carrega em suas costas,
Que eu sou proibida de ver. Eu não encontro
O Homem Enforcado. Tema a morte pela água.
Eu vejo multidões de pessoas, andando em volta em anéis.
Obrigado. Se você ver a querida Sra. Equitone,
Diga a ela que eu trago o horóscopo eu mesma:
Deve-se ser tão cuidadosa esses dias.

Cidade irreal,
Debaixo da névoa marrom de um amanhecer de inverno
Uma multidão flui sobre a Ponte de Londres, tantos,
Eu não fazia ideia de que a morte desfazia tantos.
Sussurros, curtos e infrequentes, eram exalados,
E cada homem fixou seus olhos diante de seu pé.
Fluía sobre a montanha e sob a Rua King William,
Para onde Santa Maria Woolnoth passava as horas
Com um som morto na badalada final das nove.
Lá eu vi alguém que eu conhecia, e o parei, chorando ‘Stetson!
‘Você que esteve comigo nos navios em Mylae!
‘Aquele cadáver que você plantou ano passado no seu jardim,
‘Ele começou a brotar? Vai dar flores esse ano?
‘Ou a geada repentina atrapalhou seu sono?

‘Oh mantenha o Cachorro distante, portanto, que é amigo dos homens
‘Ou com suas unhas ele vai desenterrá-lo novamente!
‘Você! Hypocrite lecteur! – mon semblale, – mon frère!’

II. UM JOGO DE XADREZ

A Cadeira que ela se sentou, como um trono polido,
Brilhou sobre o mármore, onde o vidro
Suspenso por colunas talhadas com uvas lavradas,
Das quais um Cupido dourado espiou
(O outro escondeu seus olhos atrás de suas asas)
Dobrou as chamas de um candelabro de sete ramos
Que refletia luz em cima da mesma como se
O brilho de suas joias subisse para conhecê-la,
De cases de cetim derramados em rica profusão;
Em frascos de marfim e vidro colorido
Destapados, espreitavam seus estranhos perfumes sintéticos,
Unguentos, pulverizados, ou líquidos – que causavam problemas, confundiam
E afogavam os sentidos em odores, estimulados pelo ar
Que refrescante das janelas, ascendia
Com volume as prolongadas velas,
Lançava sua fumaça na laquearia,
Agitando o modelo no teto decorado.
Imensas madeiras-do-mar alimentadas com cobre
Queimadas de verde e laranja, enquadradas pelas pedras coloridas,
Nas tristes luzes nas quais um golfinho talhado nadou.
Sobre o antigo manto foi exibido
Como uma janela que se entrega à paisagem silvestre
A mudança de Philomel, pelo bárbaro rei
Tão rudemente forçada; ainda lá o rouxinol
Preencheu todo o deserto com voz inviolável
E ela ainda chorou, e o mundo ainda importuna
‘Jug Jug’ para orelhas sujas.
E outros tocos definhados de tempo
Foram relatados sobre as paredes; formas que encaravam
Debruçavam, inclinando-se, silenciando o quarto fechado.
Pegadas se arrastavam na escada.
Debaixo da luz do fogo, debaixo do pente, seus cabelos
Se esparramavam em pontos ardentes
Ardiam em palavras, e então se tornavam selvagemente quietos.

‘Meus nervos são ruins para a noite. Sim, ruins. Fique comigo.
‘Fale comigo. Por que você nunca fala? Fala.
‘O que você está pensando? Que pensamento? O que?
‘Eu nunca sei o que você está pensando. Pense.’

Eu acho que nós estamos na toca dos ratos
Onde os homens mortos perderam seus ossos.

‘O que é aquele barulho?’
O vento debaixo da porta.
‘O que é aquele barulho agora? O que o vento está fazendo?
Nada novamente nada.
‘Faça
‘Você não sabe de nada? Você não vê nada? Você não se lembra de
‘Nada?’
Eu lembro
Aquelas pérolas eram seus olhos.
‘Você está vivo, ou não? Não tem nada na sua cabeça?’
Mas

O O O O esse Rag Shakesperiano –
É tão elegante
Tão inteligente
‘O que eu devo fazer agora? O que eu devo fazer?’
Eu devo sair correndo como estou, e andar a rua
‘Com meu cabelo para baixo, então. O que nós devemos fazer a-manhã?
‘O que nós devemos fazer sempre?
A água quente às dez.
E se chover, um carro fechado às quatro.
E nós devemos jogar um jogo de xadrez,
Pressionando olhos sem pálpebras e esperando por uma batida na porta.

Quando o marido da Lil foi dispensado, eu disse –
Eu não medi minhas palavras, eu mesma disse,
Apresse-se por favor é tempo
Agora Albert está voltando, seja esperta
Ele vai querer saber o que você fez com aquele dinheiro que ele te deu
Para você arrumar os dentes. Ele deu, eu estava lá.
Você tira eles todos, Lil, e arruma uma dentadura legal,
Ele disse, eu juro, eu não consigo mais encarar você.
E eu também não consigo mais, eu disse, e pense no pobre Albert,
Ele tem estado no exército por quatro anos, ele quer se divertir,
E se você não fizer ele se divertir, outras farão, eu disse.
Oh é isso, ela disse. Algo assim, eu disse.
Então eu vou saber quem agradecer, ela disse, e me deu um olhar direto.
Apresse-se por favor é tempo
Se você não gosta disso você pode seguir em frente, eu disse.
Outras podem pegar e escolher se você não pode.
Mas se Albert cair fora, não vai ser por falta de aviso.
Você deveria estar envergonhada, eu disse, por parecer tão antiga.
(E ela tem apenas trinta e um.)
Eu não posso evitar, ela disse, fazendo um carão,
São as pílulas que eu tomei, para tirar para fora, ela disse.
(Ela já tinha cinco, e quase morreu do pequeno George.)
O médico disse que ia dar certo, mas eu nunca fui a mesma.
Você é uma idiota peculiar, eu disse.
Bem, se Albert não te deixar sozinha, lá vai, eu disse
Para que você se casou se você não quer ter filhos?
Apresse-se por favor é tempo

Bem, aquele domingo que Albert estava em casa, eles comeram um pernil assado,
E me convidaram para o jantar, para sentir a beleza do assado –
Apresse-se por favor é tempo
Apresse-se por favor é tempo

Bas noite Bill. Bas noite Lou. Bas noite May. Bas noite.
Ta ta. Bas noite. Bas noite.
Boa-noite, senhoras, boa-noite, doces senhoras, boa noite, boa noite.

III. O SERMÃO DO FOGO

A tenda do rio está quebrada: os últimos dedos das folhas
Se agarram e afundam nas margens molhadas. O vento
Atravessa a terra marrom, despercebido. As ninfas se foram.
Doce Tâmisa, corra suavemente, até que eu termine minha canção.
O rio não suporta garrafas vazias, papéis de sanduíche,
Guardanapos de seda, caixas de papelão, bitucas de cigarro
Ou outros testemunhos de noites de verão. As ninfas se foram.
E seus amigos, os herdeiros dos diretores da cidade que por nada esperavam;
Partiram, não deixaram endereços.

Pelas águas de Leman eu me sentei e lamentei…
Doce Tâmisa, corra suavemente até que eu termine minha canção,
Doce Tâmisa, corra suavemente, para que eu não fale alto e em vão
Mas às minhas costas em uma rajada fria eu escuto
O chacoalhar dos ossos, e um riso abafado de orelha a orelha.
Um rato rastejou suavemente através da vegetação
Arrastando sua barriga pegajosa nas margens
Enquanto eu estava pescando num canal inútil
Numa noite de inverno em volta do gasômetro
Meditando o naufrágio do rei meu irmão
E do rei meu pai antes dele.
Corpos brancos nus no chão raso e úmido
E ossos atirados num sótão baixo e seco,
Chacoalhados somente pelos pés dos ratos, ano a ano,
Mas às minhas costas de tempos em tempos eu ouço
O som de buzinas e motores, que devem trazer
Sweeney para Sra. Potter na primavera.
Ó a lua brilhou forte na Sra. Porter
E em sua filha
Elas lavam seus pés em água com gás.
Et, O ces voix d’enfants, chantant dans La coupole!

Twit twit twit
Jug jug jug jug jug jug
Tão rudemente forçada
Tereu

Cidade irreal
Debaixo da névoa marrom de um meio-dia de inverno
Sr. Eugenides, o mercador de Smyrna
Barbudo, com o bolso cheio de passas
C.i.f. Londres: documentos à vista,
Me convidou em francês vulgar
A um almoço no Cannon Street Hotel
Seguido por um fim de semana no Metropole.

À hora violácea, quando os olhos e as costas
Se erguem da mesa, quando o engenho humano espera
Como um táxi esperando pulsando,
Eu Tiresias, embora cego, pulsando entre duas vidas,
Velho homem com seios femininos enrugados, posso ver

À hora violácea, a hora da noite em que se chega
Em casa, e traz o marinheiro do mar ao lar,
A casa da datilógrafa na hora do chá, termina o seu café da manhã, acende
Seu fogão, e derrama a comida enlatada.
Fora de vista perigosamente se espalha
As combinações no varal tocadas pelos últimos raios de sol,
No sofá são empilhadas (de noite, na cama)
Meias, chinelos, camisolas, e espartilhos.
Eu Tiresias, velho homem com tetas enrugadas
Percebi a cena, e previ o resto –
Eu também aguardei o convidado esperado.
Ele, o jovem carbuncular, chega,
Uma pequena casa de escrivão, com um olhar arrojado,
Um dos poucos nos quais a arrogância se assenta
Como uma cartola num milionário de Bradford.
O tempo é agora propício, como ele acredita ser,
A carne é finda, ela está entediada e cansada,
Se esforça para envolver ela em carícias
Que ainda não são reprovadas, ainda que indesejadas.
Excitado e decidido, ele a toma de uma vez;
Mãos exploradoras não encontram defesa;
Sua vaidade não requer resposta,
E saúda a indiferença.
(E eu Tiresias havia sofrido tudo
Que foi encenado nesse mesmo sofá ou cama;
Eu que havia me sentado debaixo das ruínas de Tebas
E caminhado entre os mais baixos mortos.)
Confere um beijo final como amparo,
E tateia seu caminho, encontrando as escadas apagadas…

Ela se vira e olha um momento no espelho,
Mal prevenida do amante que partiu;
Seu cérebro permite um pensamento mal formado passar:
‘Bem agora terminou: e eu estou satisfeita que terminou.’
Quando a adorável mulher se inclina para a loucura e
Dá passos ao seu quarto novamente, sozinha,
Ela alisa seu cabelo com mãos mecânicas,
E põe um álbum no gramofone.

‘Essa música ondulou em mim sobre as águas’
E ao longo do Strand, acima da Queen Victoria Street.

Ó Cidade cidade, eu às vezes posso ouvir
Além de um bar público na Lower Thames Street,
A reclamação agradável de um mandolim
E um barulho e um balbuciar de dentro
Onde pescadores se recostam ao meio-dia: onde as paredes
De Magnus Martyr sustenta
Esplendor inexplicável do branco e dourado jônio.

O rio transpira
Óleo e alcatrão
As barcaças derivam
Com o desvio da maré

Velas vermelhas
Extensas
À sotavento, balançam no duro mastrear,
As barcaças limpam
As toras à deriva
Pra baixo do Greenwich atingem
Passada a Ilha dos Cães.
Weialala leia
Wallala leialala

Elizabeth e Leicester
Remos batendo
A popa era formada
Uma concha dourada
Vermelha e dourada
A vigorosa maré
Agitava ambas as costas
Vento do sudoeste
Levado a baixo da correnteza
O bramir dos sinos
Torres brancas
Weialala leia
Wallala leialala

‘Bondes e árvores empoeiradas.
Highbury abriu o caminho. Richmond and Kew
Me destruíram. Em Richmond eu levantei meus joelhos
Inertes no chão de uma canoa estreita.’

‘Meus pés estão em Moorgate, e meu coração
Debaixo dos meus pés. Depois do evento
Ele lamentou. Ele prometeu ‘um novo começo’.
Eu não comentei nada. O que eu deveria ressentir?’
‘Nas areias de Margate
Eu posso relacionar
Nada com nada.
As unhas quebradas de mãos sujas.
Meu povo humilde povo que não espera
Nada.’

la la

Para Cartago então eu vim

Queimando queimando queimando queimando
Ó Senhor, Tu me sacudiu dali
Ó senhor Tu sacudiu

Queimando

IV. MORTE POR ÁGUA

Flebas, o Fenício, um morto quinzenal,
Esqueceu o choro das gaivotas, e o inchaço do mar profundo
E o lucro e a perda.

Uma corrente submarina
Recolheu seus ossos aos sussurros. Assim que ele se levantava e caía
Ele passou as fases de sua idade e juventude
Entrando no redemoinho.

Pagão ou judeu
Ó você que gira o leme e olha o barlavento,
Se lembra de Flebas, que já foi bonito e alto como você.

Após o vermelho das tochas nos rostos suados
Depois do silêncio congelado nos jardins
Depois da agonia em lugares rochosos
Os gritos e os choros
Prisão e palácio e reverberação
De trovão de primavera sobre montanhas distantes

Ele que estava vivo agora está morto
Nós que estávamos vivendo agora estamos morrendo
Com um pouco de paciência

Aqui não tem água mas apenas pedras
Pedras e não águas e a estrada arenosa
A estrada ventando sobre entre as montanhas
Que são montanhas de pedra sem água
Se lá houvesse água nós deveríamos parar e beber
Entre as pedras não se pode parar ou pensar
Suor é seco e os pés estão na areia
Se houvesse água entre as pedras
Uma boca morta montanhosa de dentes cariados que não podem cuspir
Aqui não se pode permanecer nem repousar nem sentar
Não há nem mesmo o silêncio nas montanhas
Mas o trovão estéril e seco sem chuva
Não há nem a solidão nas montanhas
Mas rostos vermelhos e rabugentos zombam e rosnam
De portas de casas de lama rachada
Se lá tivesse água
E nenhuma pedra
Se lá tivesse pedras
E também água
E água
Uma primavera
Uma piscina entre as pedras
Se lá tivesse o som de água somente
Não a cigarra
E a grama seca cantando
Mas som de água sobre uma pedra
Onde o tordo ermitão canta nos pinheiros
Drip drop drip drop drop drop drop
Mas não tem água

Quem é o terceiro que anda sempre ao seu lado?
Quando eu conto, apenas há você e eu juntos
Mas quando eu olho à frente lá em cima da estrada branca
Sempre tem outro alguém andando ao seu lado
Deslizando envolto de um manto marrom, encapuzado
Eu não sei se é um homem ou uma mulher
– Mas quem é aquele do seu outro lado?

O que é aquele som alto no ar
Murmúrio de lamentação maternal
Quem é aquela horda encapuzada abundando
Sobre planícies intermináveis, cambaleando em terra rachada
Em torno apenas do horizonte plano
O que é aquela cidade sobre as montanhas
Quebra e reforma e explode no ar violáceo
Torres que caem
Jerusalém Atenas Alexandria
Viena Londres
Irreal

Uma mulher desprendeu firmemente seus longos cabelos negros
E tocou com firmeza uma música sussurrante naquelas cordas
E morcegos com rosto de bebê na luz violácea
Assobiaram, e bateram suas asas
E rastejaram suas cabeças para baixo de um muro enegrecido
E de cabeça para baixo no ar onde torres
Entoavam os sinos remanescentes, que mantinham as horas
E as vozes cantando sobre cisternas vazias e poços exaustos.

Nesse buraco decaído entre as montanhas
Na fraca luz da lua, a grama está cantando
Sobre túmulos tombados, sobre a capela
Lá está a capela vazia, apenas a casa do vento.
Não tem janelas, e a porta balança,
Ossos secos não podem fazer mal a ninguém.
Apenas um galo permanece em cima da árvore
Co co rico co co rico
Em um flash de luz. E então uma rajada úmida
Trazendo chuva.

Ganga afundou, e as folhas frágeis
Esperaram pela chuva, enquanto as nuvens negras
Se reuniram bem longe, sobre Himavant.
A selva se agachou, se arqueou em silêncio.
E aí o trovão falou
DA
Datta: O que nós demos?
Meu amigo, sangue sacudindo meu coração
A terrível ousadia de um momento de rendição

Do qual uma era de prudência não pode nunca retratar
Por isso, e isso apenas, nós temos existido
O que não se encontra nos obituários
Ou nos memoriais envoltos pela beneficente aranha
Ou debaixo de selos quebrados pelo esguio advogado
Nos nossos quartos vazios
DA
Dayadhvam: Eu ouvi a chave
Girar na porta uma vez e virar uma vez apenas
Nós pensamos na chave, cada um em sua prisão
Pensando na chave, cada um confirma uma prisão
Apenas um crepúsculo, rumores etéreos
Revivem por um momento um Coriolanus despedaçado
DA
Damyatai: O barco respondeu
Alegremente, para a mão experiente em velas e remos
O mar estava calmo, seu coração teria respondido
Alegremente, quando convidado, batendo obedientemente
A mãos controladoras

Eu me sentei sobre a margem

Pescando, com a planície árida atrás de mim
Eu deveria ao menos deixar minhas terras em ordem?

A ponte de Londres está caindo caindo caindo

Poi s’ascose nel foco che gli affina
Quando fiam céu chelidon – Ó andorinha andorinha
Le Prince d’Aquitaine à la tour abolie
Esses fragmentos eu escorei contra minhas ruínas
Por que então Ile te serviu, Jerônimo está louco novamente.
Datta. Dayadhvam Damyata.

Shantih shantih shantih

LVII

Poema original por e.e. cummings

Tradução por fábio visnadi

algum lugar que eu nunca tenha viajado,contente por trás
qualquer experiência,seus olhos têm o silêncio deles:
no seu mais frágil gesto estão coisas que se aproximam de mim,
ou que eu não posso tocar porquê estão muito perto

seu olhar desprezivo facilmente vai abrir-me
embora eu tenha fechado a mim como dedos,
você abre pétala por pétala a mim como a Primavera abre
(tocando habilmente,misteriosamente)sua primeira rosa

ou se você deseja estar perto de mim,eu e
minha vida vai paralisar muito belamente,de repente,
assim como o coração da sua flor imagina
a neve cuidadosamente todo lugar desmoronando;

nada que nós estamos para perceber nesse mundo é igual
o poder da sua intensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor das suas terras,
pagando morte e para sempre com cada respiração

(eu não sei o que é em você que fecha
e abre;apenas alguma coisa em mim que entende
a voz dos seus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém,nem mesmo a chuva,tem tão pequenas mãos

The Love Song of J. Alfred Prufrock

Poema original por T.S. Eliot

Tradução por Fábio Visnadi

Vamos então, você e eu
Que a noite se espalha contra o céu
Como um paciente anestesiado sobre uma mesa;
Vem, por entre ruas seguras e quase desertas
Os repousos murmurantes
De noites incansáveis em hotéis baratos
E restaurantes feitos de serragem com conchas de ostra:
Ruas que seguem como um fatigante argumento
De intenções traiçoeiras
Que te levam a uma irresistível pergunta…
Oh, não pergunte, ‘O que é isso?’
Vamos e a gente vê

Nas salas as mulheres vêm e vão
Falando de Michelangelo.

A névoa amarela que esfrega suas costas sob as vidraças,
A fumaça amarela que esfrega seu focinho sob as vidraças
Lambeu sua língua nas esquinas da noite,
Demorou-se nas poças que ficam nas sarjetas
Deixa cair sob suas costas a fuligem que cai das chaminés
Deslizou pelo terraço, deu um pulo repentino,
E vendo que era uma noite calma de Outubro,
Enrolou-se sobre a casa, e caiu no sono.

E eventualmente vai chegar o tempo
Para a fumaça amarela que escorrega pela rua
Esfregando suas costas sob as vidraças.
Vai chegar o tempo, vai chegar o tempo
De preparar uma cara para encontrar as caras que você conhece;
Vai chegar o tempo de matar e de criar,
E tempo para todos os trabalhos e dias de mãos
Que se erguem e deixam cair uma pergunta em seu prato;
Tempo pra você e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E para uma centena de visões e revisões,
Antes da hora de chá e torradas.

Nas salas as mulheres vêm e vão
Falando de Michelangelo.

E eventualmente vai chegar o tempo
De se perguntar, ‘Eu me atrevo?’ e, ‘Eu me atrevo?’
Tempo de virar as costas e descer a escada,
Com uma careca no meio do cabelo –
[Eles vão dizer: ‘Como seu cabelo cresce pouco!’]
Meu casaco matinal, o colarinho firme no queixo,
A gravata modesta e suntuosa, mas presa por um simples alfinete –
[Eles vão dizer: ‘Mas como seus braços e pernas estão magros!’]
E eu lá me atrevo
A perturbar o universo?
E em um minuto lá está o tempo
De decisões e revisões que em outro minuto já não vão ser as mesmas.

Pois eu já as tenho conhecido todas, conheço-as todas –
Tenho conhecido as noites, manhãs, tardes,
Tenho medido minha vida com colheres de café;
Conheço as vozes se calando com a calada
Da música abaixo, de um quarto distante.
Então como eu ousaria?

E já tenho conhecido os olhares, conheço-os todos –
Os olhares que te encaram e reduzem a uma fórmula,
E quando estou formulado, me contorcendo em um alfinete,
Quando estou alfinetado e me contorcendo na parede,
Então como eu deveria começar
A cuspir fora todas as bitucas dos meus dias e caminhos?
E como eu ousaria?

E eu já tenho conhecido os braços, conheço-os todos –
Braços com braceletes e brancos e desnudos
[‘Mas à luz do lampião, cobertos com cabelos castanho claro!’]
É o perfume vindo de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que repousam ao redor de uma mesa, ou embrulham-se num xale.
E como eu ousaria?
E como eu deveria começar?

*****

Eu devia dizer que andei por ruas estreitas ao anoitecer
E assisti a fumaça que sai dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, se inclinando pra fora das janelas?

Eu devo ter tido um par de garras defeituosas
Que afogavam ao redor do piso de mares silenciosos.

*****

E a tarde, a noite, dorme tão pacificamente!
Polida por longos dedos,
Sonolenta… cansada… ou fingindo,
Esticada no chão, aqui entre você e eu.
Eu devo, depois do chá e bolo e sorvetes,
Ter o vigor para forçar o momento para sua crise?
Mas embora eu tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora eu tenha visto minha cabeça [com sua careca crescendo levemente] ser trazida numa travessa,
Eu não sou profeta – e aqui já não há um problema;
Eu já vi o momento da minha centelha de grandeza
E eu vi o eterno ceifador segurar meu casaco, e rir em silêncio,
E em pouco tempo, eu estava assustado.

E teria valido a pena, depois de tudo,
Depois das xícaras, da geleia, do chá,
No meio da porcelana, no meio de alguma conversa de você e eu,
Teria valido a pena,
Ter mordido o problema com um sorriso,
Ter comprimido o universo em uma bola
E rolado ele em direção a uma questão esmagadora
Para dizer: “Eu sou Lazarus, vindo dos mortos,
Volto para contar a todos vocês, eu devo contar a todos vocês’ –
Se alguém, acomodando um travesseiro sob sua cabeça,
Deveria dizer: ‘Não é o que eu quis dizer de modo algum.
Não é isso, de jeito nenhum.’

E teria valido a pena, depois de tudo,
Teria valido um pouco a pena,
Depois do pôr-do-sol, dos quintais e das ruas chuviscadas,
Depois das novelas, dos copos de chá, das saias que se arrastam pelo chão –
E isso, e muito mais? –
É impossível dizer o que eu quero dizer!
Mas se uma lanterna mágica mostrasse os nervos em uma tela padronizada:
Teria valido a pena
Se um, acomodando um travesseiro ou tirando o xale,
E virando em direção a janela, dissesse:
‘Não é isso de jeito nenhum,
Não é o que eu quis dizer, de modo algum.’

*****

Não! Eu não sou o Príncipe Hamlet, nem fui feito pra ser;
Sou um fidalgo, alguém que vai
Levar ao progresso, começar uma cena ou mais
Advertir o príncipe, uma ferramenta eficaz
Diferencial, grato por ser de uso
Político, cauteloso, mas meticuloso;
Cheio de sentenças nobres, mas um pouco obtuso;
Às vezes, de fato, quase embaraçoso –
Quase, às vezes, o Bobo.

Eu envelheci… eu envelheci…
Eu devo vestir a barra das minhas calças dobrada.

Será que eu devo repartir a parte de trás do meu cabelo? Será que eu ouso comer um pêssego?
Eu devo vestir calças brancas flaneladas, e andar pela praia.
Eu tenho ouvido as sereias cantando, uma a uma.

Tenho as vistas caminhando em direção ao mar nas ondas
Penteando o cabelo branco das ondas trazidas de volta
Quando o vento assopra as águas escuras e claras.

Nós temos demorado nos aposentos do mar
Devido as garotas do mar coroadas com algas marinhas vermelhas e marrons
Até que a voz humana nos acorda, e aí nos afogamos.