by Fábio Visnadi

The Love Song of J. Alfred Prufrock

Poema original por T.S. Eliot

Tradução por Fábio Visnadi

Vamos então, você e eu
Que a noite se espalha contra o céu
Como um paciente anestesiado sobre uma mesa;
Vem, por entre ruas seguras e quase desertas
Os repousos murmurantes
De noites incansáveis em hotéis baratos
E restaurantes feitos de serragem com conchas de ostra:
Ruas que seguem como um fatigante argumento
De intenções traiçoeiras
Que te levam a uma irresistível pergunta…
Oh, não pergunte, ‘O que é isso?’
Vamos e a gente vê

Nas salas as mulheres vêm e vão
Falando de Michelangelo.

A névoa amarela que esfrega suas costas sob as vidraças,
A fumaça amarela que esfrega seu focinho sob as vidraças
Lambeu sua língua nas esquinas da noite,
Demorou-se nas poças que ficam nas sarjetas
Deixa cair sob suas costas a fuligem que cai das chaminés
Deslizou pelo terraço, deu um pulo repentino,
E vendo que era uma noite calma de Outubro,
Enrolou-se sobre a casa, e caiu no sono.

E eventualmente vai chegar o tempo
Para a fumaça amarela que escorrega pela rua
Esfregando suas costas sob as vidraças.
Vai chegar o tempo, vai chegar o tempo
De preparar uma cara para encontrar as caras que você conhece;
Vai chegar o tempo de matar e de criar,
E tempo para todos os trabalhos e dias de mãos
Que se erguem e deixam cair uma pergunta em seu prato;
Tempo pra você e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E para uma centena de visões e revisões,
Antes da hora de chá e torradas.

Nas salas as mulheres vêm e vão
Falando de Michelangelo.

E eventualmente vai chegar o tempo
De se perguntar, ‘Eu me atrevo?’ e, ‘Eu me atrevo?’
Tempo de virar as costas e descer a escada,
Com uma careca no meio do cabelo –
[Eles vão dizer: ‘Como seu cabelo cresce pouco!’]
Meu casaco matinal, o colarinho firme no queixo,
A gravata modesta e suntuosa, mas presa por um simples alfinete –
[Eles vão dizer: ‘Mas como seus braços e pernas estão magros!’]
E eu lá me atrevo
A perturbar o universo?
E em um minuto lá está o tempo
De decisões e revisões que em outro minuto já não vão ser as mesmas.

Pois eu já as tenho conhecido todas, conheço-as todas –
Tenho conhecido as noites, manhãs, tardes,
Tenho medido minha vida com colheres de café;
Conheço as vozes se calando com a calada
Da música abaixo, de um quarto distante.
Então como eu ousaria?

E já tenho conhecido os olhares, conheço-os todos –
Os olhares que te encaram e reduzem a uma fórmula,
E quando estou formulado, me contorcendo em um alfinete,
Quando estou alfinetado e me contorcendo na parede,
Então como eu deveria começar
A cuspir fora todas as bitucas dos meus dias e caminhos?
E como eu ousaria?

E eu já tenho conhecido os braços, conheço-os todos –
Braços com braceletes e brancos e desnudos
[‘Mas à luz do lampião, cobertos com cabelos castanho claro!’]
É o perfume vindo de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que repousam ao redor de uma mesa, ou embrulham-se num xale.
E como eu ousaria?
E como eu deveria começar?

*****

Eu devia dizer que andei por ruas estreitas ao anoitecer
E assisti a fumaça que sai dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, se inclinando pra fora das janelas?

Eu devo ter tido um par de garras defeituosas
Que afogavam ao redor do piso de mares silenciosos.

*****

E a tarde, a noite, dorme tão pacificamente!
Polida por longos dedos,
Sonolenta… cansada… ou fingindo,
Esticada no chão, aqui entre você e eu.
Eu devo, depois do chá e bolo e sorvetes,
Ter o vigor para forçar o momento para sua crise?
Mas embora eu tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora eu tenha visto minha cabeça [com sua careca crescendo levemente] ser trazida numa travessa,
Eu não sou profeta – e aqui já não há um problema;
Eu já vi o momento da minha centelha de grandeza
E eu vi o eterno ceifador segurar meu casaco, e rir em silêncio,
E em pouco tempo, eu estava assustado.

E teria valido a pena, depois de tudo,
Depois das xícaras, da geleia, do chá,
No meio da porcelana, no meio de alguma conversa de você e eu,
Teria valido a pena,
Ter mordido o problema com um sorriso,
Ter comprimido o universo em uma bola
E rolado ele em direção a uma questão esmagadora
Para dizer: “Eu sou Lazarus, vindo dos mortos,
Volto para contar a todos vocês, eu devo contar a todos vocês’ –
Se alguém, acomodando um travesseiro sob sua cabeça,
Deveria dizer: ‘Não é o que eu quis dizer de modo algum.
Não é isso, de jeito nenhum.’

E teria valido a pena, depois de tudo,
Teria valido um pouco a pena,
Depois do pôr-do-sol, dos quintais e das ruas chuviscadas,
Depois das novelas, dos copos de chá, das saias que se arrastam pelo chão –
E isso, e muito mais? –
É impossível dizer o que eu quero dizer!
Mas se uma lanterna mágica mostrasse os nervos em uma tela padronizada:
Teria valido a pena
Se um, acomodando um travesseiro ou tirando o xale,
E virando em direção a janela, dissesse:
‘Não é isso de jeito nenhum,
Não é o que eu quis dizer, de modo algum.’

*****

Não! Eu não sou o Príncipe Hamlet, nem fui feito pra ser;
Sou um fidalgo, alguém que vai
Levar ao progresso, começar uma cena ou mais
Advertir o príncipe, uma ferramenta eficaz
Diferencial, grato por ser de uso
Político, cauteloso, mas meticuloso;
Cheio de sentenças nobres, mas um pouco obtuso;
Às vezes, de fato, quase embaraçoso –
Quase, às vezes, o Bobo.

Eu envelheci… eu envelheci…
Eu devo vestir a barra das minhas calças dobrada.

Será que eu devo repartir a parte de trás do meu cabelo? Será que eu ouso comer um pêssego?
Eu devo vestir calças brancas flaneladas, e andar pela praia.
Eu tenho ouvido as sereias cantando, uma a uma.

Tenho as vistas caminhando em direção ao mar nas ondas
Penteando o cabelo branco das ondas trazidas de volta
Quando o vento assopra as águas escuras e claras.

Nós temos demorado nos aposentos do mar
Devido as garotas do mar coroadas com algas marinhas vermelhas e marrons
Até que a voz humana nos acorda, e aí nos afogamos.

Advertisements